DISCÍPULO
Grego: μαθητής (mathētēs) | Strong: G3101
260 ocorrências em 246 versículos: Mt 5:1; 8:21,23,25; 9:10,11,14,19,37; 10:1,24,25,42; 11:1,2; 12:1,2,49; 13:10,36; 14:12,15,19,22,26; 15:2,12,23,32,33,36; 16:5,13,20,21,24; 17:6,10,13,16,19; 18:1; 19:10,13,23,25; 21:1,6,20; 22:16; 23:1; 24:1,3; 26:1,8,17,18,19,26,35,36,40,45,56; 27:64; 28:7; 28:8,13,16; Mc 2:15,16,18,23; 3:7,9; 4:34; 5:31; 6:1,29,35,41,45; 7:2,5,17; 8:1,4,6,10,27,33,34; 9:14,18,28,31; 10:10,13,23,24,46; 11:1,14; 12:43; 13:1; 14:12,13,14,16,32; 16:7; Lc 5:30,33; 6:1,13,17,20,40; 7:11,18; 8:9,22; 9:14,16,18,40,43,54; 10:23; 11:1; 12:1,22; 14:26,27,33; 16:1; 17:1,22; 18:15; 19:29,37,39; 20:45; 22:11,39,45; Jo 1:35,37; Jo 2:2,11,12,17,22; 3:22,25; 4:1,2,8,27,31,33; 6:3,8,12,16,22,24,60,61,66; 7:3; 8:31; 9:2,27,28; 11:7,8,12,54; 12:4,16;13:5,22,23,35; 15:8; 16:17,29; 18:1,2,15,16,17,19,25; 19:26,27,38; 20:2,3,4,8,10,18,19,20,25,26,30; 21:1,2,4,7,8,12,14,20,23,24; At 6:1,2,7; 9:1,10,19,25,26,38; 11:26,29; 13:52; 14:20,22,28; 15:10; 16:1; 18:23,27; 19:1,9,30; 20:1,7,30; 21:4,16

O termo traduzido por “discípulo” no Novo Testamento é o substantivo grego μαθητής (mathētḗs), derivado do verbo μανθάνω (manthánō), que significa “aprender”.1 Em seu sentido básico, μαθητής (mathētḗs) designa alguém que aprende a partir de outro, mas no mundo antigo — especialmente no contexto judaico — o termo ultrapassa a ideia de simples aluno. O discípulo é aquele que se vincula a um mestre, aprende com ele de modo contínuo e molda sua vida a partir desse ensino.

Etimologia e pano de fundo hebraico

O correspondente hebraico de μαθητής é תַּלְמִיד (talmíd), escrito תַּלְמִיד (plural: תַּלְמִידִים, talmidím), derivado da raiz למד (lmd), “aprender / ensinar”. O termo aparece no Antigo Testamento, mas de forma rara e sem desenvolvimento teológico amplo. Um exemplo claro ocorre em 1 Crônicas 25:8, onde se lê a distinção entre “o mestre e o discípulo” (תלמיד). Nesse versículo, a Septuaginta (LXX) — antiga tradução grega do Antigo Testamento hebraico, produzida entre os séculos III e I a.C. — traduz talmíd por μαθητής (mathētḗs), mostrando que o termo grego já estava disponível como equivalente. Em outros textos, como Isaías 8:16, a LXX prefere empregar formas verbais ligadas a “aprender” (μανθάνω) ou expressões pedagógicas, em vez de usar sistematicamente o substantivo μαθητής. Isso indica que, embora o conceito existisse, ele não ocupava lugar central na teologia do Antigo Testamento.2

Desenvolvimento no judaísmo do primeiro século

É no judaísmo do Segundo Templo — especialmente no período imediatamente anterior e contemporâneo a Jesus — que o conceito de talmíd se torna dominante. Rabinos reuniam discípulos que não apenas ouviam seus ensinos, mas os acompanhavam, observavam sua conduta, imitavam seus gestos e assimilavam sua interpretação da Lei. O discípulo não aprendia apenas o que o mestre ensinava, mas como ele vivia. Esse pano de fundo explica por que os Evangelhos recorrem de modo tão frequente ao termo “discípulo” (μαθητής - mathētḗs): ele já carregava um forte significado relacional, prático e existencial.

O sentido de “discípulo” nos Evangelhos

Nos Evangelhos, o termo “discípulo” (μαθητής - mathētḗs) designa primeiramente aqueles que seguem Jesus de modo concreto, caminhando com ele, ouvindo seus ensinos e participando de sua missão. Contudo, o próprio Jesus amplia esse conceito. Ele fala de discípulos que devem tomar a cruz, permanecer em sua palavra e guardar seus mandamentos, indicando que o discipulado não se limita à convivência física com ele, mas se estende a todo aquele que aprende e vive segundo o seu ensino. Assim, o termo possui tanto um sentido histórico (os seguidores imediatos de Jesus) quanto um sentido mais amplo e duradouro, aplicável a todos os seus seguidores.

Ausência do termo nas epístolas

Um dado significativo é que o termo “discípulo” (μαθητής - mathētḗs) não aparece nas epístolas do Novo Testamento, apesar de sua enorme frequência nos Evangelhos e em Atos. Os estudiosos geralmente entendem essa ausência não como abandono do conceito, mas como mudança de ênfase linguística e teológica. As epístolas são textos pastorais e doutrinários dirigidos a comunidades já formadas, e nelas o foco não está mais na chamada inicial para “seguir” Jesus, mas na configuração contínua da vida cristã.

Nesse contexto, Paulo e outros autores preferem termos como μιμητής (mimētḗs, “imitador”), destacando que o cristão é chamado a imitar Cristo e aqueles que vivem segundo ele (1Co 4:16; 1Co 11:1; Fp 3:17; 1Ts 1:6; 2Ts 3:7,9).3 A ideia central do discipulado permanece, mas é expressa com outra linguagem: menos narrativa e mais ética, comunitária e espiritual.4

Conclusão

Biblicamente, “discípulo” não designa apenas alguém que recebe instrução, mas alguém que aprende vivendo, que se vincula a um mestre e molda sua vida segundo esse ensino. O termo tem raízes no hebraico talmid, é desenvolvido no judaísmo do primeiro século e encontra nos Evangelhos sua expressão mais rica. Mesmo ausente das epístolas, o discipulado permanece como realidade fundamental da fé cristã, agora descrita em termos de imitação, conformação e vida em Cristo.


Notas

1. O verbo μανθάνω (manthánō), que significa “aprender”, ocorre 25 vezes no Novo Testamento, em 24 versículos: Mt 9:13; 11:29; ; 24:32; Mc 13:28; Jo 6:45; 7:15; At 23:27; Rm 16:17; 1Co 4:6; 14:31,35; Gl 3:2; Ef 4:20; Fp 4:9,11; Cl 1:7; 1Tm 2:11; 5:4,13; 2Tm 3:7,14(2x); Tt 3:14; Hb 5:8; Ap 14:3.

2. “A noção de ‘Discípulo’ (mathêtês) é de origem grega e faz referência à organização das Escolas filosóficas antigas, na Academia de Platão, no Liceu de Aristóteles ou entre os estoicos. Aplica-se aos membros do grupo próximo do mestre, aos que compartilham sua vida e têm alguma coisa a aprender dele. Ela qualifica, portanto, uma relação entre mestre e aluno: nos evangelhos, Je-sus é frequentemente chamado ‘Mestre’ (Rabbi).” (BASLEZ, Marie-Françoise. Jesus: dicionário histórico dos evangelhos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. p.65).

3. A preferência de Paulo pelo termo “imitador” em vez de “discípulo” reflete um cuidado pastoral. Tendo sido formado como discípulo do famoso rabino Gamaliel (cf. At 22:3), Paulo conhecia bem o modelo judaico de ensino, no qual a relação entre mestre e discípulos podia gerar a formação de escolas centradas em líderes humanos. Por isso, evita uma linguagem que pudesse sugerir que estivesse fundando sua própria escola. O termo “discípulo” tende a pressupor uma relação estável de autoridade entre mestre e discípulo, enquanto “imitador” desloca o foco para a conformação prática da vida ao exemplo de Cristo. Isso fica claro em 1Co 11:1, onde Paulo estabelece um limite explícito: ele só pode ser imitado na medida em que imita Cristo, o único a quem ele se submete e reconhece como cabeça da Igreja.

4. “Jesus procurou estabelecer uma igreja? A pergunta tem um tom tão anacrónico que quase não vale a pena perguntar. Mas se por igreja queremos dizer a ‘assembleia’ reunida diante do Senhor Deus, então pode-se dizer que Jesus imaginou que seus discípulos funcionassem dessa forma. Deveríamos, antes, falar de uma nova família, isto é, do discipulado como uma família fictícia, tendo Deus como Pai e Jesus como irmão mais velho? Se com essa pergunta queremos dizer um novo agrupamento social, por definição colocado em oposição e em antítese a famílias biológicas e outros agrupamentos sociais comuns, a resposta é "Não". Mas se com "igreja" queremos dizer uma comunidade ligada pelo "amor fraterno", distinta por sua abertura aos marginalizados, caracterizada por membros que se arriscam uns pelos outros como fariam por uma irmã ou irmão amado, e não por hierarquia, ofício sacerdotal ou jogo de poder, então o conceito não estaria tão distante do que Jesus parece ter sugerido.” (DUNN, James D. G. Jesus recordado. Contagem, MG : Biblioteca Teológica; São Paulo: Paulus, 2022. p. 796).

Autor: Alan Capriles
Publicado em: 28/01/2026

Sobre o autor: Alan Capriles é um seguidor de Cristo sem rótulo denominacional, pesquisador independente do Novo Testamento e da história do cristianismo. Dedica-se a ensinar o evangelho e a compartilhar gratuitamente suas pesquisas, sem vínculo institucional e com respeito a todas as denominações. Ele agradece qualquer forma de apoio para que possa continuar se dedicando integralmente às pesquisas, ao compartilhamento de suas descobertas e ao auxílio gratuito àqueles que desejam congregar de maneira simples e edificante em Cristo.
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